O Bardamé!

Hélas! Eis a pérola da blogosfera! Passe a imodéstia q é mta! Inspirado obviamente na melhor tradição blogueira, td blogs mui sérios e elevados, o BARDAMÉ!, parte da ideia de q "pisar merda dá sorte", e tem como único desiderato o de cagar em cima de normas de fabrico, padrões de qualidade, exigências de bom gosto, etc e tal, para publicar textos carregados de boutades e mts dislates. Peças de escritores são admitidas, m só se forem boas. Assim é o BARDAMÉ. Bardamé pra isto td!

Wednesday, May 11, 2005

Seminário

Estava eu sossegado na minha biblioteca a reler os livros do Mao Tsé-Tung, a recordar os tempos idos da minha juventude, quando a minha secretária, a Dra. Ivete, bateu à porta e disse-me que um jovem de seu nome Alfredo, habitante cá da terra, estava lá fora para falar comigo. Eu disse-lhe: “Ivetinha, não sei quem é esse jovem e a menina sabe perfeitamente que não quero meter-me na vida dos outros, muito menos na das gentes desta terra. Veja bem que estes maledicentes até dizem que a menina faz de mim o que quer!” e ela respondeu “o Alfredo está desesperado e só quer falar com o «sôtor». Vá, rechoncha, o que é que lhe custa ouvi-lo? Só cinco minutos…” disse, fazendo aquele beicinho ao qual não resisto. Lá disse à Ivetinha para mandar entrar o rapaz e disse-lhe para ela acabar o meu discurso para a inauguração de logo à noite.
Não me vens pedir mais dinheiro para ir às putas, pois não, Alfredo?”, perguntei, e o jovem respondeu “não, «setôr», desta vez quero que meta uma cunha aos meus pais.
Perguntei-lhe o que se passava e o rapaz explicou-me que depois de eu lhe ter oferecido O Capital deixara de ir missa aos Domingos, dava caneladas nos acólitos aquando do jogo de futebol cá da terra, questionava tudo e mais alguma coisa e, a gota de água deu-se quando começou a chamar fascista ao Portas, quando disse aos quatro ventos que abominava Salazar, que achava o Ratzinger um inquisidor dos bons tempos da contra-reforma e que esse conclave não era mais que uma fraude revestida de inspiração divina. Dito isto, os pais começaram aos berros – disse-me que mais pareciam o Manuel Subtil a barricar-se –, que até foram falar ao Padre Guterres, que achava que o jovem estava possuído, e recomendou que o melhor seria que renunciasse aos prazeres carnais e se dedicasse ao espírito.
O «setôr» meteu-me nesta, agora safe-me! Fui lá e só vi homens, nenhuma gaja à vista! E falaram-me que o voto de castidade era sagrado!” A Ivetinha, de facto, é fantástica, o jovem tem mesmo razão para estar apreensivo.
Com a calma que tanto me caracteriza, expliquei-lhe que pelo facto de ir para um seminário não quer dizer que tivesse de cumprir com o voto de castidade – não pinar é que era pecado, de certeza que dava para dar uma escapadinha ao tasco mais próximo e alguém havia de safá-lo – e até lhe dei o exemplo do meu amigo Bispo da Horta, que tem mais “irmãs” e “primas” que qualquer rodovalho! Também lhe disse que a vida de seminarista não era assim tão má, raramente era preciso fazer alguma coisa, tinha sempre acesso a bons convívios e altas comezainas, tinha direito a uma boa casa, cama e roupa lavada, tudo a expensas de outrem, mas isso não era, de modo algum, proxenetismo. Mas avisei-o que se quisesse subir na vida só tinha de saber ouvir e calar para poder a chegar a ter um tacho na pirâmide eclesiástica e, quem sabe, um lugar no Vaticano. Caso pretendesse nunca passar da cepa-torta só tinha de comer e beber, dizer meia dúzia de missas, ouvir umas beatas a falar sempre da mesma coisa e preocupar-se com o campeonato de futebol. Até lhe disse para não se inquietar muito com o facto de os padres terem de pagar IRS porque quando aparecesse um governo de extrema-direita e cobarde, tipo fascista ou mesmo esses esvaziados monárquicos, essa norma era imediatamente revogada. Na eventualidade de ficar nas lonas, como qualquer cidadão que paga impostos para o Estado, teria sempre a hipótese de pedinchar uma côngrua aos fiéis da paróquia e ameaçá-los com as ardentes chamas do inferno caso não contribuíssem.
O certo é que o jovem me disse que não estava assim tão desesperado, que queria ser alguém na vida. Aí caí em mim, o jovem estava cheio de razão. Comprometi-me a pagar-lhe os estudos e todas as despesas aquando do ingresso e decorrer da faculdade. Tenho a certeza que os pais compreenderão esta atitude, nada melhor que um jantar cá em casa para não ser enxovalhado na missa. Espero bem que, ao menos, me continuem a oferecer umas couves de vez em quando.
Na verdade, não há nada que a Ivetinha me peça que eu não faça com prazer.

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